sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Do meu eu de dezoito anos

Não queria nada. Não queria o tempo livre que inutilizava nas baldas às aulas para ficar nos cafés e nas sestas de três horas. Sim, porque estar na esplanada da faculdade a manhã inteira a enfrentar o Sol e a proteger-me do ataque dos pombos que voavam a pique sobre as mesas para apanharem os restos das sandes (um pesadelo para a minha ornitofobia, só me lembrava da Tippi Hedren a ser bicada pelas gaivotas) era extremamente cansativo. Não queria o meu corpo da altura, nem o meu corte de cabelo - e Deus me livre!- o estilo, chamemos-lhe assim, por descargo de consciência. Não queria decerto a minha conta bancária. Nem os gajos que andavam atrás de mim na altura. Acrescento, nem queria os gajos de quem eu andava atrás. Não queria a ambiguidade daquela felicidade das quintas, sextas e sábados à noite, provocadas pela quantidade de vodka-limão que bebia e do imenso vazio que era o dia seguinte, quando não me lembrava de nada e supostamente tinha sido muito giro e tinha-me divertido imenso. Não queria o meu número de telefone, qualquer coisa do tipo 9#6969#96, motivo de muitos olhares que se arrogavam a cúmplices e sorrisos descaradamente marotos, como se eu tivesse chegado à loja do operador móvel em questão e tivesse pedido por um contacto que fosse meio caminho andado para piadas porcas. Não queria nada daquela idade, não queria nada de volta, estou muito melhor assim e não mudarei de opinião até chegar aos trinta.

Não queria nada, digo. Pensando melhor, se calhar as certezas davam jeito.

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