sábado, 22 de outubro de 2011

Descontrolada



Às vezes meto o meu iTunes no modo aleatório e aparecem-me coisas que já não ouvia há séculos. Esta teve uma razão em especial para cair no esquecimento; fiz em tempos uma viagem enorme de carro com ele e só tínhamos um cd que ouvimos repetidamente quando o rádio só começou a apanhar frequências esquisitas. Curiosamente, apesar da exaustão daquela colectânea home made, só me lembro desta e da Eleonor Rigby. Ouvir uma ou outra remetiam automaticamente para aquela sete horas na Primavera de 2009, para os disparates recíprocos, para as festinhas que lhe fazia na cabeça enquanto conduzia, para todas aquelas paragens nas áreas de serviço manhosas com aquelas personagens indiscritíveis que surgem sempre que estamos em viagem e que parecem saídas de uma qualquer cena de um qualquer filme do Tarantino. Pensei que fosse só comigo - esta cristalização destas memórias em particular. E isto porque tendemos a guardar coisas distintas, achava eu: nós, as mulheres, pregamos como recordação mais querida o momento em que ele disse que gostava de nós e intuímos finalmente que podia ser a sério; eles, homens, fixam a primeira vez que nos conseguiram desapertar o soutien. Sensibilidades, repito, achava eu. Até que no outro dia falava com ele e disse-me que uma das lembranças mais queridas que tinha tido de mim, ao longo deste tempo todo, era exactamente desse dia, de mim a cantarolar (mal, acrescentou com lata) ao som desse cd. Parecias feliz, concluiu.

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