terça-feira, 25 de outubro de 2011

Ao longo da minha vida - mas com especial incidência nos últimos anos porque quando crescemos é mais ridículo acreditar-se no Menino Jesus e o Pai Natal é que é - fui gozada por várias pessoas devido à minha educação católica. Sou uma rapariga moderna, gosto de pensar que sim, e essa modernidade reflecte-se em  comportamentos inadequados de dimensão mais risível como a vaidade que me leva a pintar o cabelo e as unhas ou ouvir música rock; e em opiniões mais controversas como concordar com o casamento e adopção pelos homossexuais ou  actos pecaminosos, como o sexo que já tive sem ser casada e do qual não resultou descendência. Apesar desta pouca vergonha toda, tenho de admitir que há resquícios, coisas bem recalcadas do tempo do colégio das freiras, da catequese, quando sob um manto de amor e compreensão bem me enfiaram um montão de complexos, um esmagador sentimento de culpa e uma pretensão de consciência e moralidade que com o tempo se revelaram bacocas. Apesar de todas as falhas e de todas as críticas que aprendi a fazer - sim, porque não ligo nada às que os outros que estão de fora fazem e que acham ignorantes quem nunca questionou a crença na Religião que lhes foi impingida pelos pais, sem sequer parar para pensar que a sua posição contra também foi transmitida pela mesma via e é igualmente irreflectida - admito que a ideia de um ser superior, que nos incentiva a seguir também valores superiores numa vida terrena e cada vez mais repleta de lixo, continua a fascinar-me. Não são raras as vezes que entro numa igreja, quase sempre a mesma ali no Chiado, e falo um pouco com Ele. Não faço nenhum drama metafísico daquilo, não me sentiria minimamente enganada se amanhã tivesse "sinais" mais fortes a apontar para a teoria da Sua inexistência; é sempre bom falar sem restrições, é especialmente bom quando estamos atormentados e não queremos nenhuma resposta e fica sempre mais económico de que um psiquiatra (que todos sabemos, faz de conta que está ali para não nos julgar mas é contar-lhe algo mais aberrante e se observarmos com atenção, muita mesmo, num pequeno lapso, milésimos de segundos, conseguimos descortinar-lhe um "fodaaaa-se" no olhar). Muitas vezes, pedia-Lhe coisas, normalmente um pouco de clarividência para tomar alguma decisão, outras entrariam naquela classificação de "milagres". E consciente disso, que precisava de um "milagre" para aquela situação em concreto, saía de lá mesmo assim mais aliviada, como quando temos algo muito importante em mãos que não conseguimos resolver e passamos a outra pessoa e tiram-nos o mundo de cima: aquilo bem pode nunca aparecer feito, mas está a ser visto e acima de tudo já não é um problema exclusivamente nosso. Depois de um período longo de espera onde nada aconteceu, penso finalmente que aquela fé ao jeito de Kierkegaard se calhar serviu-me de alguma coisa, fez-me aguentar até ao impensável para que pudesse assistir, finalmente, aos benditos e desejados absurdos. Como o Sporting a golear hoje na sua nona vitória consecutiva.

1 comentário:

Luis Gaspar disse...

"Certain new theologians dispute original sin, which is the only part of Christian theology which can really be proved".