quarta-feira, 21 de setembro de 2011

O que eu gostava mesmo de ser era uma mulher preocupada com coisas práticas. Se gostava de ser assim individualmente, o que se traduziria num maior controlo do valor acumulado no Cartão Continente e redobradas atenções na combinação mala/sapatos, é óbvio que este meu desejo acentua-se no meu lado relacional. Gostava de ser simples, despachada, conhecer um homem e falar bem com ele, achá-lo minimamente atraente, verificar se tinha bons hábitos de higiene e me tratava bem e pronto, isso, só isso ser suficiente para me interessar por ele e arriscar uma relação. Gostava de gostar que me oferecessem rosas e que me levassem a ver um filme numa qualquer grande superfície comercial dos subúrbios, dos jantares nos aniversários e Dia dos Namorados, dos passeios ao Domingo à tarde no Parque das Nações para se apanhar os últimos raios de Sol. E aproveitava enquanto resultasse, se acabasse, acabava, ficava triste duas, três semanas, desamigava-me dele no Facebook, eliminava-o primeiro por aí e depois de todos os outros lados. Ia-se. Passado algum tempo e porque agora era simples e a prática leva à perfeição aparecia outro com quem falaria bem, que seria minimamente atraente, com impecáveis hábitos de higiene e que me tratasse bem e tudo recomeçava de novo. Eventualmente, lá acertaria num e depois casavámos e tínhamos filhos mas enquanto isso não acontecesse não teria ficado a encarquilhar para aqui, teria gozado à grande os jantares, as viagens, o sexo, que é o que as outras fazem e parecem todas muito mais felizes e realizadas do que eu. A verdade é que chega a uma altura - eu cheguei há uns tempos atrás - em que deixamos de lutar contra aquilo que visceralmente somos, não há qualquer ímpeto de mudança, de "improvement", somos assim caraças, não temos de nos amar, mas finalmente deixamos de nos odiar e de perguntar sabe-se lá a quem "porque é que eu tive de nascer assim??!!". Ora eu, eu por menos atada que gostasse de ser, sei que sou esta romântica inveterada contrafeita que vai fatalmente ficar sozinha porque mais ninguém tem paciência para estas merdas do amor hoje em dia  e eu não quero nem uma grama a menos do que isso.

3 comentários:

Anónimo disse...

Conheço quem de facto fica sozinha: mulheres deficientes, feias, gordas, doentes. Não fica sozinha quem tenha problemas de semântica com o "amor". Mas o discurso neurótico auto-compassivo é sempre reconfortante.

Piston disse...

Gosto de acreditar que a expressão "eliminar" não se remete a uma questão informática mas a algo mais ao estilo louva-a-deus.

Isa disse...

no que fazes tu muitíssimo bem. e nem entres no mérito as outras são mais felizes, não são, só gritam mt alto que sim e postam isso no facebook e nos blogs, mas é mentira. se fossem nao tinham tempo pra facebook e blogs, estavam no parque das nações ou enroscadinhas em casa com os seus amores a ver filmes e assim