sexta-feira, 9 de setembro de 2011

No seu livro mais famoso, a certo ponto e pela voz da personagem principal, a Clarice Lispector diz o seguinte «E também: como ligar-se a um homem senão permitindo que ele a aprisione?».

É um facto, debato-me com esta ideia há uns tempos, desde que deparei-me com ela e mesmo após ter abandonado o livro. Acho-a aberrante, contudo não consigo por mais que tente e já tentei, refutá-la. Tenho conhecidas, amigas, leio em todos os  lados testemunhos de relações resolvidas e independentes, relatos de vidas perfeitamente decalcadas que só se encontram na cama e por mais perfeito que tudo me pareça, sinto-me um bocado constrangida porque lembro-me da evidência da afirmação citada. Do preço a pagar pela ligação. Por mais politicamente correcto e moderno que seja dizer que o Amor é a expressão suprema da liberdade, é bastante óbvio que é o oposto: a maior, a derradeira prisão. Em primeiro lugar, porque não escolhemos quem amamos, só quem fodemos - haverá algo mais assustador do que isto, do que poder escolher a quem dar o corpo mas não os afectos? E segundo, porque a verdadeira ligação não se conquista com jantares divertidos e hobbies em comum mas com a revelação das fraquezas, dos calcanhares de Aquiles, não é algo conquistado facilmente, ao desbarato. Nessa altura, quando finalmente conectamos, ganhamos aquela exposição vulnerável perante o outro e sentimos pela primeira vez uma vontade gritante de fugir. E é aí que percebemos que já não vamos a tempo.

6 comentários:

Piston disse...

Contingências de quem respira.

Filigraana disse...

É bonito e não se faz.

Sara disse...

So true, my dear.

Anónimo disse...

Curiosamente ainda hj troquei impressoes sobre esta tema. Após ter ficado em choque com a submissão de uma mulher que conheci perante o marido. Ao comentar o sucedido a uma amiga ela referiu-me que era o seu maior medo... ficar assim tão presa a alguém... de um modo dependente. Portanto sim adorei a tua postagem pq reflecte exactamente aquilo que fiquei a remoer.
bjs

Samantha

Inês B. disse...

O que acontece é que, às vezes, o cérebro emocional que nos faz apaixonar por alguém que não escolhemos conscientemente prega-nos uma partida. Não acontece muitas vezes, penso, mas acontece algumas e então, eis que, do outro lado e alvo do nosso amor, está alguém que também se apaixona por nós. E que se revela, as suas fraquezas, os calcanhares de Aquiles..que conhece o nosso lado mais escuro e que o ama. Isto existe. Acontece até, às vezes, cega pela paixão, achares que se puseres uma capa e fingires ser outra pessoa ele poderá mais facilmente apaixonar-se por ti que, disfarçado, és um ser resolvido e feliz. O verdadeiro amor tem a percepção da capa e ama o que está para lá dela..a gaja mal resolvida cheia de pequenas frustrações, cheia de "issues". E não é uma prisão. Ou, a ser, é uma prisão onde se pagava para estar.

Inês B. disse...

O que acontece é que, às vezes, o cérebro emocional que nos faz apaixonar por alguém que não escolhemos conscientemente prega-nos uma partida. Não acontece muitas vezes, penso, mas acontece algumas e então, eis que, do outro lado e alvo do nosso amor, está alguém que também se apaixona por nós. E que se revela, as suas fraquezas, os calcanhares de Aquiles..que conhece o nosso lado mais escuro e que o ama. Isto existe. Acontece até, às vezes, cega pela paixão, achares que se puseres uma capa e fingires ser outra pessoa ele poderá mais facilmente apaixonar-se por ti que, disfarçado, és um ser resolvido e feliz. O verdadeiro amor tem a percepção da capa e ama o que está para lá dela..a gaja mal resolvida cheia de pequenas frustrações, cheia de "issues". E não é uma prisão. Ou, a ser, é uma prisão onde se pagava para estar.