domingo, 28 de agosto de 2011

Summer love (ou a prova que faltava da minha falta de jeito com os homens)

Tinha vinte anos quando fui de férias com as minhas amigas da faculdade para o Algarve. No primeiro dia o grupo estava incompleto, erámos só três, sendo que as outras três vinham ter connosco no dia seguinte. Nessa tarde, lembro-me de estarmos na cozinha vindas da praia a beber shots de vodka, a cozinhar e a cantar o Love is a Battlefield da Pat Benatar, doidas de expectativa, da liberdade, do fim dos exames. Nesse dia jantámos, demorámos hora e meia a arranjar-nos, a trocar e a emprestar roupas e brincos e depois fomos sair de braço dado para não nos espatifarmos nos saltos e/ou no alcóol. Estavámos sentadas no primeiro bar quando reparámos em quatro tipos na mesa ao lado a olhar para nós,  até que finalmente um deles mete conversa e pergunta se nos podem oferecer uma rodada. Eu, que nunca gostei desse tipo de engate, fiquei logo toda empertigada e respondo que não mas a P., que era a mais descontraída e a que mais percebia de homens, chamou-me logo de parva e não só aceitou, como os convidou a sentarem-se connosco. Eram franceses, tinham a mesma idade que nós, e estariam na cidade pelo mesmo período - bebemos à custa deles durante a hora que durou a conversa e no fim, quando nos quisemos ir embora para outro lado, eles perguntaram se podiam ir connosco. Mandei um olhar enfurecido à P.  Contudo não sei como as coisas se desenrolaram (ou melhor sei mas não quero dizer) mas para aí as quatro da manhã um deles, o D. que era todo esotérico já estava a dizer que curava a P. das dores de garganta que ela começava a sentir através de energias Reiki e ela já estava absolutamente apanhadinha e eu, e eu apanhadinha estava pelo S. que depois de me rodopiar a noite inteira ao som daquelas músicas latinas que inevitavelmente passam naqueles bares rascos algarvios para os estrangeiros acharem que estão num  sítio exótico, começou-me já na rua a falar de cinema francês. Dizia-me ele "mas o bom, não são aquelas merdices recentes, estou a falar da Nouvelle Vague, o Godard, o Truffaut, o Rohmer, conheces?"  e eu só pensava que aquilo era digno, ao menos não tinha sido eu a cair nas terapias Reiki, cinema francês era engate digno. Nessa noite despedimo-nos e combinámos encontrar-nos no outro dia na praia, já depois das nossas outras amigas chegarem. Assim foi e passámos um dia muito divertido até que chegámos a casa e íamos sair com eles à noite outra vez e a N., uma das amigas recém-chegadas, saiu-se com a seguinte:

- E aquele S.? O que é aquilo? Aquele é para mim!

Nós tinhamos aquele compromisso tácito que à primeira apropriação as outras tiravam a pata de cima. Eu percebi que estava fora de jogo e entreguei-me à cerveja, numa tentativa de mentalização do grau de estoicismo que me seria exigido nos próximos dias. O que aconteceu foi o seguinte: ele não estava dentro das nossas lealdades femininas e continuou a tentar ser engraçado comigo. Eu ia para a água, ele vinha para água, aparecia-me com gelados e bebidas, convida-me para dançar e eu ao fim de um tempo já pensava que caraças, eventualmente, a minha amiga iria perceber que ele estava interessado em mim e deixaria a costa livre, mas ela não percebeu ou fingiu que não percebeu e continuámos no mesmo impasse. Chegámos à última noite e combinámos ir a uma famosa discoteca começado com K, que em Agosto parecia Lisboa. O rapaz estava extremamente agressivo porque era a última oportunidade e fez uma pequena cena, quando toda a gente achou que ele que era um homenzarrão de quase 1,90 devia ir à frente no carro e ele insistiu que não, que queria ir atrás comigo. Durante o caminho, não se calou, atrapalhava-se imenso e do nada punha-se a falar comigo em francês e eu já nem conseguia olhar para ele sem olhar para a boca dele e pensar "beija-me já" e então remeti-me a abrir a janela e a virar-lhe as costas enquanto observava a paisagem a passar a grande velocidade no escuro.

Não aconteceu nada. Nesse dia de madrugada despedimo-nos e a história podia acabar por aqui mas não ( e o post já vai longo). Dois dias mais tarde - eu já em Lisboa, ele em Paris - começámos a falar no msn, e ele pergunta-me logo à descarada porque é que eu tinha sido tão evasiva. Eu contei-lhe a verdade, ele fartou-se de gozar comigo e eu aí, pela primeira vez senti-me muito estúpida. Continuámos a falar, a trocar emails, faziamos aquelas coisas idiotas tipo mostrar os nossos quartos e os nossos animais de estimação pela webcam e ficámos amigos. No Verão seguinte, eu marco uma viagem a Paris, com outro grupo de amigas e quando lhe conto ele fica histérico e diz que me vai mostrar imensas coisas e vamos divertirmo-nos muito e passámos para aí um mês a falar disso. Combinámos então que quando chegasse a Paris dizia-lhe alguma coisa. Na viagem para lá, começo a achar que aquilo é uma péssima ideia, lembrava-me daqueles dias no Algarve como uma espécie de momento à Lost in Translation e receava que se acontecesse alguma coisa se quebrasse a magia daquela memória e por isso, não lhe disse nada. Só falei com ele quando regressei, e ele estava furioso comigo, que não lhe tinha respondido aos emails e que ele até tinha ficado preocupado com o que poderia ter acontecido a um grupo de miúdas a viajar sozinhas pela Europa. Contei-lhe a verdade mais uma vez e desta vez ele não achou graça nenhuma e disse-me "Sabes qual é o teu problema? Pensas demasiado."

E nunca mais falámos e seis anos mais tarde, pensar, continua a ser o meu principal problema.

9 comentários:

Isa disse...

porra, meu, mas aos 20 não se pensa, valha-te deus :D ainda pra mais no algarve, no Verão, com gajos de fora, a minha especialidade... :P

RBM disse...

It's my biggest regret my dear, and i have a few =)

Piston disse...

Paris está no mesmo sítio. Ainda vais a tempo.

RBM disse...

Já não sou tão gira =/

Piston disse...

Vê isso pelo lado positivo, não te podes dar ao luxo de perder mais tempo. Tens que resolver essas situações antes de ficares horrível.

RBM disse...

conseguiste por-me mais deprimida do que o habitual ;)

Piston disse...

É sempre possível descer mais um degrau.

Maria disse...

Somos duas.

RBM disse...

É sempre bom um pouco de solidariedade e compreensão ;)