terça-feira, 16 de agosto de 2011

Quatro meses

Quando cheguei a casa reparei que o estado da minha secretária era o seguinte: uma caixa cheia de bijuteria amontoada; uma garrafa de litro e meia de água que já deve ter para aí duas semanas; uma garrafa de meio litro de água que não faço ideia de quanto tempo tem; um creme hidratante; uma caneca com um resto de sumo; um amontoado de livros, que incluem códigos jurídicos nos quais não pego desde o fim dos exames (há dois meses); um necessaire cheio de vernizes vermelhos e cor-de-rosa, claro; uma toalha de praia; muitos papéis dispostos em pilhas.

Admito, a custo, que a situação ficou descontrolada e meto-me a arrumar as coisas. No meio daquilo tudo encontro o recibo da minha última consulta de psiquiatria (recibo esse que na altura não encontrei e que não pude enviar para o seguro), datado de há quatro meses atrás. A minha incursão pela afamada experiência  séria da terapia teve a duração de pouco mais de dois anos e teve como protagonistas eu, a minha segunda depressão clínica e três médicos diferentes. A primeira tentativa foi com uma psicóloga, ali na Rua Braancamp e à segunda consulta ela faz uma observação muito infeliz acerca da minha infância e eu ri-me secretamente e pensei "ai amiga, já foste". A segunda tentativa foi com um psiquiatra, uma semana depois. Falava à sopinha de massa e logo na primeira consulta explicou-me em tom confidente que tinha ali um copo com uma substância que parecia whisky, mas que na realidade era chá, ele é que não gostava de beber pela caneca mas sentia-se na obrigação de explicar tal facto aos pacientes, porque segundo ele muitos (especialmente as senhoras) olhavam de lado para o copo e para o liquído flutuante no interior. Desse gostei muito,  deixava-me muito à vontade e de repente tinhamos sessões de duas horas em que só falavámos de cinema, livros, viagens e notícias, muito descontraídos - ele com o chá, eu com um cafézinho que a recepcionista  me oferecia. Lá fora o consultório enchia e ele não se preocupava muito com isso, logo eu também não. A nossa relação  durou cerca de dez meses e na verdade eu saía de lá muito satisfeita e bem-disposta e achava que aquilo estava a resultar e a funcionar muito bem para mim, até perceber que esse estado durava umas horas e depois voltava a ficar inevitavelmente mal. Ora, eu não falava com ninguém na altura, tinha entrado num processo de isolamento total e o que eu gostava mesmo naquelas sessões é que ali voltava a ser humana, deixava a pele de bicho do mato para trás e subitamente voltava a ter interesses e opiniões. Mas no fundo, continuava deprimida. Mudei, o último era então um tipo muito novo, supostamente muito brilhante, e que com base nessa suposição esticava fantasticamente os honorários. Aí, tive a terapia clássica, o tempo contadinho ao minuto, a caixa de Kleenex disposta estrategicamente ao meu alcance. Este tinha o dom de me deixar muito nervosa e quando ele começou a reparar nisso fiquei ainda pior e aquilo começou logo a ficar enviesado. Ele perguntava-me como eu tinha passado desde a última visita e eu respondia automaticamente sempre "bem" e ele punha-se a escrevinhar lentidamente na minha ficha e depois pedia-me para desenvolver e aí eu percebia que estava bem o caraças, normalmente começava a chorar e mandava abaixo uma caixa de lenços de papel. Ao fim de uns meses, aquela dinâmica começou a irritar-me, a solenidade, as coisas em que ele me pedia para reflectir numa altura em que não conseguia pensar e decidi fazer aquilo que todos os doentes mentais que se acham espertos fazem em algum ponto - tentar enganar o médico e dizermos tudo aquilo que achamos que eles querem ouvir. A grande cisma dos nossos diálogos eram obviamente o fim da minha relação e a minha irredutibilidade em admitir que voltaria a ter alguém. Ele tentava-me explicar que tinha passado por um trauma e eu replicava, dizia que não me conhecia e que de certeza não voltaria a ter mais nenhum homem. Ele desistia e passava-me a receita para as mãos. De uma consulta para a outra, espaçadas de duas semanas, eu entrei confiante e quando ele me fez a pergunta temida "então e já equaciona voltar a conhecer outros homens, pensar nisso pelo menos...?", eu disse logo que sim. Fui tão credível que ele abriu genuinamente os olhos de espanto e pediu-me para explicar como se tinha operado aquela mudança tão súbita. Não fui capaz de explicar o que não sentia e fiquei cansada de todo aquele processo, do cúmulo do engano, da tentativa desesperada de manter uma fachada na única situação em que não me era pedida para manter nenhuma, em que aliás pagava para que alguém lidasse exactamente com a minha disfuncionalidade. Quando saí marquei a próxima consulta, já consciente que da véspera ligaria para a desmarcar com uma desculpa qualquer e não voltaria mais. Achei nesse dia que se era para ir até ao fundo, iria sozinha, não listaria nos casos de insucesso de um tipo que até era bom médico e pouparia uns euros. Achei mesmo que era o ínicio declarado do meu fim, a querida desistência Agora, percebo como estive a subestimar a minha capacidade de resistência este tempo todo e a secretária ficou impecável de arrumada.

3 comentários:

Piston disse...

Que bela história para ler antes do soninho.

RBM disse...

ohhh ohhh, que não te dê pesadelos. Não quero que voltes a molhar a cama e precises também de ir ao médico por isso :(

Piston disse...

A fralda resolveu-me todos os problemas.