segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A maioria das mulheres que conheço e com quem me dou têm sempre uma maleita que lhes é característica. A espécie é variável, começa nas enxaquecas, passa pela dor nas articulações (intensificada com a mudança súbita do tempo), termina nas infecções urinárias. Por pior que sejam cada uma das citadas a título meramente exemplificativo - acredito que sim - arrisco-me a dizer que nada é mais grave do que o desconforto  causado pela minha, que nem sequer é física, o que apesar de tudo pode trazer benefícios como faltar um dia ao emprego ou não ter sexo na hora do Biggest Loser. O meu problema é a insatisfação crónica. A insatisfação crónica ataca de repente, nada faz adivinhar um acesso desta quando acordamos de manhã e o sol brilha e julgamos que temos um dia perfeito pela frente. As primeiras horas são passadas normalmente, o problema está em latência, adormecido, e nós ainda sorrimos em ingenuidade com as pequenas coisas simples e bonitas do quotidiano, como o facto do café estar bem cheio e não termos der esperar muito pelo autocarro. Sinto, normalmente, os primeiros indícios de uma crise por volta das duas e meia, três da tarde. Fico mole, a cabeça começa a dispersar em pensamentos difusos, incoerentes e eu fico em alerta, na esperança que toda aquela agitação seja na verdade resultante da frustração da vontade de dormir uma sesta. As dúvidas dissipam-se, os receios concretizam-se: à indolência, junta-se a insolência e não consigo suportar mais ninguém, inclusive mim própria. Começo a queixar-me de tudo, e as pessoas assustadas com as minhas impressionantes capacidades dramáticas, tentam lembrar-me que ao fim e ao cabo, nem tudo é mau, tenho saúde e tal. Tenho saúde, e o cabelo que me caí às mechas com que este calorzão, replico eu. Desistem e fico sozinha, na minha auto-comiseração, entregue à tragédia da qual tanto me queixo mas que se tornou o meu maior vício. Obviamente, quando percebo que me deixaram de chatear, também isso é motivo de insatisfação e começo a ser provocatória, lanço olhares maldosos exactamente para deixar as pessoas a pensarem "no que raio estará ela a pensar" e quando me perguntam o que se passa, torno-me escorregadia e evasiva, "nada, nada" e ajo com uma naturalidade calculadamente forçada para deixar os outros inquietos.  É claro que nada disto acalma a angústia da crise, e mais tarde, quando penso nisso tudo, só me deixa ainda pior. O carrossel de coisas incómodas não pára: o telemóvel está a ficar sem bateria e faz um barulhinho irritante; porque é que está sol sempre que estou a trabalhar e tempo de merda quando estou de folga; porque é tens de falar assim; porque é que ele não me ama; porque não posso ser rica e mais magra e falar russo? Tudo me angustia, há um pequeno monstro de gigantes garras, que se alimenta das minhas entranhas, da minha vulnerabilidade ou susceptibilidade às merdices. No fim do dia, fico exausta: as soluções que se alinham é tornar alguém o bode expiatório desta minha fraqueza de carácter; tomar dois calmantes e ir dormir; tentar relativizar o sucedido. Hoje, para variar, decidi fazer a última.

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