terça-feira, 23 de agosto de 2011

Legado

Li há pouco um texto sobre a perda e surpreendi-me quando percebi que nada daquilo me comovia - o desespero mais ou menos evidente resultante do desgosto do adeus que se espera não ser definitivo, as putas das saudades, o sentimento fatalista que nos leva a pensar "eu não vou viver sem esta pessoa" ou se viver, vou ser uma espécie de autómato, que come, fala, dorme, faz o que se pede dele num modo piloto automático em jeito aristotélico, cumpre sempre mas não sente. Não me comove porque agora sei que faz parte tudo do histerismo do pós- trauma - ainda bem que ele existe para todos nós que gostamos de arte e somos românticos - mas não é um sentimento real,  porque se fosse não se diluía nos meandros de algo supostamente muito menos consistente: o tempo. É tudo muito bonito, muito intenso, dá lindas histórias de vida, experiência, "mais vale ter amado e ter perdido do que nunca ter amado", adquirimos umas rugas e uns cabelos brancos que só dão charme aos homens ao mesmo tempo que perdemos o brilho dos olhos, devia valer a pena e o caraças mas a  mim é que não me voltam a apanhar numa semelhante. À medida que lia aquele texto dava-me vontade de dizer à autora aquilo tudo que me diziam em tempos - que passa, que chega o dia em que honestamente queremos lá saber do que se passa com o outro, em que já não temos vontade de escrever bittersweet e-mails, que antecipamos que não vão ser respondidos, às quatro da manhã, em que encontramos desprevenidos uma qualquer recordação e  já não começamos a chorar à desgarrada. Isso passa tudo, o que achamos ser o pior passa e depois vivemos a nossa vida, bem. E aqui vem o sentido real do pior. Não é aquela sensação altamente consciente que continuamos a gostar de alguém que já não temos, o que apesar de ser destrutivo é também honesto e coerente. O pior é hoje - é estar bem e por exemplo sonhar com ele, e acordar transtornada em suores frios, e deixar-me ficar transtornada durante o dia, em algo que corrói ,que amarga. O pior não é amar na perda, é odiar. Porque o primeiro passa, já sei disso, o segundo acho que não.

1 comentário:

Psualmente. disse...

"O pior não é amar na perda, é odiar"...Como eu concordo contigo!!!! Houvesse forma de fazer uma lipoaspiração "localizada" ao cérebro/coração.

Mas uma coisa é bem verdade, felizmente...não deixamos de "respirar"...life goes on...