sexta-feira, 1 de julho de 2011

A ternura da segunda infância

Há toda uma geração que, por crueldade cósmica (calhou serem eles), ficaram entalados entre outras duas. A dos filhos - que apoiaram numa educação longa e na maioria da vezes cara e nos primeiros passos mal pagos no mercado do trabalho- e a dos pais, que devido à Ciência sobrevivem ao que não é suposto sobreviver-se, em idades que já não é suposto viver-se; cancros e tromboses, às vezes os dois num espaço curto de tempo. Há vinte anos atrás, a minha mãe ia-me buscar à escola e comprava-me, de vez em quando, um gelado no café por debaixo da minha casa, na condição que só o poderia comer a seguir ao jantar. Eu choramingava e durante a refeição debicava o que tinha no prato, desdenhosamente criticando as espinhas, os nervos, a temperatura, numa gula mal contida pela sobremesa, que diga-se, raramente conseguia comer sozinha. Hoje em dia - mais concretamente no dia de ontem - a minha mãe foi chamada ao lar onde a minha avó se encontra a "repousar". Aparentemente, a senhora tem-se tornado agressiva com as auxiliares que tentam sem sucesso obrigá-la a comer o frango estufado e o esparregado, preferindo alimentar-se, há uma série de dias consecutivos à base de oreos e iced tea de manga.

2 comentários:

Isa disse...

A avó de uma amiga, já muito, muito velhinha, não saía do quarto, quando havia festas lá em casa. Recusava-se, inclusive, a ir falar às pessoas. Quando tudo acabava e todos iam dormir, ela ia à cozinha comer tudo quanto era doce que houvesse :)
Bjo

RBM disse...

Uma das grandes vantagens da idade (além da tão falada sabedoria) deve ser isso: poder fazer o que dá na real gana e ser somente vistos como uns velhotes excêntricos :)

bjo