quinta-feira, 14 de julho de 2011

Questão

Perguntava-me porque é que a paixão alheia nos é sempre tão nojenta. A questão surgiu-me depois de ver duas miúdas a beijarem-se fogosamente na estação do Rossio e antes que pensem, o asco não foi por se tratar de duas mulheres, que eu sou toda pró-gay, pró-amor, pró-quero-lá-saber-desde-que-não-me- chateiem. Todos nós (suponho que sejam seres sexuados) já fomos surpreendidos em situações onde os lábios não se descolavam e as mãos, essas marotas, ganhavam vida própria e autonomizam-se do pudor e da moral e percorriam zonas do corpo então desejado, que não deviam ser percorridas, em locais menos recatados. Estas experiências podem ter graus de arrojo distintas, do linguado de quinze minutos (como as meninas no Rossio), à rapidinha temerária. Quando acontece connosco, este ataque fulminante de paixão, no momento pós-consciente somos atingidos por uma vergonha autêntica, mas nada nos tira o gosto do pecado bem cometido. Todavia, quando nos deparamos quando estas manifestações nos outros, viramos avózinhas de lenço apertado à volta do queixo, não nos escapa o "que badalhoquice" mas pensamos nele, "que fossem para uma pensão", e desviamos o olhar - não para não incomodar os apaixonados (que em bom rigor, na maior parte das vezes, nem se aperceberiam) mas para nós próprios não nos sentirmos incomodados. O senso-comum justificaria isto pela dor de cotovelo - enquanto olhamos, os outros tiram o proveito; e o senso-comum esquece-se então de todos esses peeping toms pelo mundo fora, que adoram ver e não fazer nada. A razão verdadeira é que a paixão é o sentimento menos empático à face da terra, só a compreendemos quando somos nós a senti-la, quando é o nosso corpo e a nossa cabeça que é levada para a abstracção dos actos impensáveis, das coisas que jamais faríamos. Quando são com os outros, porque os outros nunca são capazes de sentir como nós sentimos, é apenas imoralidade, porcalhice e hormonas bem apimentadas, que isto agora sabe-se e pensa-se em sexo desde muito pequenino.

3 comentários:

Isa disse...

ahahahaahaha, adorei.
mas eu continuo a achar que essas coisas badalhocas da intimidade são pra ser feitas entre 4 paredes :DD

fora que o que é que essas gajas têm de esfregar na minha cara que eu não tenho quem lamber, hã? porque é óbvio que fazem de propósito, as cabras...

Bjo

Sara disse...

Revi-me tanto neste post (de ambos os lados) que até estou envergonhada.lol Mas a tua explicaçao para o fenómeno não podia fazer mais sentido! Em algumas coisas, nós - seres humanos - somos tão iguais uns aos outros e primários que até irrita. Mas é fascinante ao mesmo tempo.

RBM disse...

Com que lado, estás tu envergonhada, Sara? Hmmm hmmmmm. :P