sexta-feira, 1 de julho de 2011

O respeito post-mortem

«Angélico está angélico, vestido de branco...»

Se há uma coisa que sempre me surpreendeu foi o culto ao mortos, como é feito aqui e na maioria dos países latinos, os velórios que se estendem pelas noites a dentro (dantes até se levava comida, porque lá para a meia noite e meia a digestão do jantar já estava feita), o vasinho de cerâmica na campa que até pode muito bem ter flores artificiais, os cartõezinhos com a fotografia do morto e respectivas datas de nascimento e óbito, que a agência funerária disponibiliza numa mesinha arranjada a preceito na capela mortuária, a jeito de souvenir - convenientemente, com os contactos da própria agência, porque afinal morre gente todos os dias e pode vir a dar jeito. De todo este ritualismo, o que sempre me impressionou mais foi o fascínio pelo cadáver em si - ali está ele, com roupas escolhidas para a ocasião, tapado com um lençol rendilhado que as pessoas fazem questão de levantar para depois comentarem "está tão sereno" ou, como uma vez ouvi, "parece que se está a rir" - o que era possível se estivessemos no "Estranho Caso de Angélica" (a Angélica do Manoel, eu sei que comecei a falar do Angélico, não tenho culpa da coincidência). Nesta notícia, repugna-me a compactuação com isto, a má capacidade descritiva, o trocadilho fácil com alusão aos anjinhos imaculados e repugna-me ainda mais a prova dos nove de tudo o que escrevi para trás. Organizaram grupos para entrar à vez para ver o corpo de alguém que ao fim e ao cabo não lhes dizia nada - debaixo daquela desculpa da sensibilização com a tragédia, do apoio à família, temos vouyerismo transvestido. Aquelas pessoas querem é terem tema no café para os próximos dias, comentarem o fato, a expressão, indagarem se o chapéu era para tapar alguma marca deixada pelo acidente e intervenções (oh, o que elas dariam para o terem tirado e confirmado tudo). Fala-se, escreve-se, regurgita-se tudo e no fim só fica mesmo aquela sensação de asco.

Graças a Deus, daqui a três dias terá passado este embaraço social e posso sentir-me um pouco menos envergonhada pela falta de vergonha dos outros.

4 comentários:

Isa disse...

Não poderia concordar mais. E tu conseguiste escrever tudo isso de uma forma bem simpática. Não estou aí, como provavelmente já deves ter percebido, nem tenho acompanhado as notícias sobre isso, mas pela tua descrição consigo imaginar. Credo... que medo!
Bjo

RBM disse...

Isa, no site do Público as três notícias mais lidas são todas relativa SÓ ao serviço fúnebre. Por curiosidade, cliquei numa. As proporções são simplesmente ridículas e o lamentável é ver media de referência a alimentar isto - descrições quase ao minuto; detalhes da roupa do morto (!!!). Ironicamente, noutros casos, que não apelam tanto ao dramatismo das massas fazem pequenos textos de cinco linhas a dizer que "x morreu no hospital não sei dos quantos após doença prolongada" e tudo passa despercebido.

Isa disse...

Que horror... até onde se explora a dor alheia em troca de uns cliques, credo...

Calimera disse...

Estas palavras representam tudo o que eu pensei sobre tal assunto. Temos também todo o tipo de Abutres que aparecem momentos. A Namorada, a Ex- namorada, acho que até o ex-namorado da ex namorada deve ter chorado baba e ranho para aparecer nas revistas.