sábado, 25 de junho de 2011

Não me entendam mal, hoje é daqueles dias que deviam ter sido saltados do calendário -se bem que no meu caso, não me chegava passar de ontem para amanhã (amanhã estarei igualmente na merda) mas sei lá para daqui a cinco anos. Daqui a cinco anos, já estarei mais endinheirada, aos quatro gatos já terei juntado um cão, continuarei amarga que nem um bocado - não sei, queria lembrar-me de algo mesmo muito amargo que não fosse o óbvio limão, mas não me apetece pensar e não me ocorre nada expontâneamente- enfim, estarei amarga e decerto isso notar-se-á na minha imagem. Sabem, há aquelas pessoas que pelo esgar da boca, com os cantos objectivamente torcidos para baixo, ou pelo semi-cerrar dos olhos mesquinhos e sem brilho, vemos logo que são assim, e tendemos a afastarmo-nos delas, como se elas emanassem algum odor desagradável. Algumas emanam de facto mas eu, esperemos, não serei uma dessas. Daqui a cinco anos já raramente me lembrarei de ti - passarão dias em que me levanto, vou trabalhar, escovo os animais, vejo os mesmos filmes de sempre - e numas fracções de segundos lá me lembrarei de ti. Gostava e invejo a tua capacidade de te descartares das cinzas da nossa relação - imagino-te a lançá-las num qualquer respiradouro do metro, enquanto eu que sou mórbida continuo a dormir agarrada à urna.  Claro, que para te esquecer terei de mudar de cidade ou de país, aqui é impossível sonhar com isto: trabalhas onde estudo, vives onde trabalho; diariamente percorremos a mesma linha de metro e saimos nas mesmas duas estações. Não nos cruzamos ainda por piedade divina; eu esqueço-me frequentemente de coisas e tenho de voltar atrás, e tu, tu sempre andaste muito depressa. Hoje imagino-te a aproveitar o teu novo estado e disposição, e por mais altruísta e doce que quisesse ser, sinto-me pisada que nem um bife. Não tenho ressabiamento, mas mágoa que tento disfarçar pelo recurso aos óculos de sol vintage. Lembro-me de uma passagem do meu livro favorito, onde a protagonista prestes a perder a razão, disfarça estoicamente com pó de arroz, chapéu da moda e uma expressão impassível e até claramente irónica na cara. Quando lhe pedem para lhe tirar uma foto, ela entra interiormente em pânico, porque antecipa que tal súbita concentração de atenção nela, despoleterá uma crise de choro compulsiva. Eu hoje vou ali apanhar sol como todas as miúdas da minha idade fazem num dia que ronda escandalosamente os 40º, rezando para que ninguém sequer se lembre de me perguntar as horas.

A ti, o melhor do mundo.

1 comentário:

Piston disse...

Uma pessoa que não quer andar para o lado não denúncia que está a tomar balanço.