segunda-feira, 13 de junho de 2011

Eu sou uma boa cidadã (ou de como só precisava de um empurrãozinho para o ser)

Há uma semana atrás a Câmara Municipal da minha área de residência teve a ideia de vir apanhar vários gatos de uma colónia perto da minha casa, que eu própria ajudava a alimentar há vários anos. Em boa hora, estava por casa nessa fatídica manhã pelo que pude despejar as minhas frustrações contra os senhores agentes municipais que primeiramente se mostravam autoritários no cumprimento da lei, mas que depois ficaram envergonhados quando questionei porque é que os gatos é que eram a prioridade camarária e não por exemplo, o lixo na rua. Ou a manutenção dos espaços verdes. Ou o controlo de outras condutas contrárias à ordem pública e muito mais chocantes do que a alimentação de animais: nesse mesmo jardim de onde foram apanhados os gatos e onde as crianças jogam à bola, é constante ver porcalhões que não estando para se aguentar até à casa de banho mais próxima decidem urinar ali mesmo para cima da vegetação, à vista desarmada. Ao atentado à saúde, junta-se o exibicionismo, já que alguns nem fazem por ser discretos. No meio de muitos encolher de ombros e de uma mudança radical de atitude - o "mas quem é a senhora?" inicial transformou-se num discurso lamentavelmente servilista - lá acabaram por me dizer, à laia de confissão justificatória, que a maioria destas iniciativas partem de denúncias particulares. Como disse a um amigo meu nesse dia, nem sei o que me deixou mais indignada: comprovar que existe gente maldosa que se incomoda com meia de dúzia de gatos num jardim público; se a admissão tácita que a Câmara por iniciativa própria nada faz.
A minha frustração intensificou-se nos dias seguintes quando tentei recolher informações acerca dos gatos que tinham sido apanhados e deparei-me com um mar absoluto de obstáculos. Não me diziam que gatos tinham sido capturados. Ou quantos eram. Não me deixavam tirar fotografias deles, porque isso implicava tirar fotos também das instalações do gatil. Mais tarde, lá deixaram escapar que possivelmente nem tinham um registo da operação, pelo que se eu não os soubesse identificar, eles também não me saberiam dizer quais eram os animais que tinham recolhido. Primeiro, tratavam-nos muito bem, depois disseram-me que "obviamente" não poderiam ficar com eles indeterminadamente. O normal e habitual jogo da batata quente, sempre a convidarem-me a telefonar no dia seguinte, para falar com uma nova Drª, que dava-me nova informação, igualmente insatisfatória e difusa. Existe uma resolução da Assembleia da República, datada deste ano e que vem prever o estatuto do denominado animal comunitário (exactamente para evitar estas situações de sobrelotamento dos canis municipais e abate desnecessário de animais saudáveis) que surpreendentemente estas entidades que trabalham com o assunto invocam desconhecer.

Como não pude resolver (ainda) o assunto dos gatos decidi, a curto prazo, canalizar as minhas forças noutra direcção. Assim, dia sim dia não, tenho também eu, assumido o papel de cidadã exemplar e telefono para a Câmara com uma nova reclamação. Descobri no entretanto, que consigo ser incrivelmente picuinhas e a minha imaginação para coisas que podem ser melhoradas na minha área é infindável. Depois ainda há outras situações incontornáveis como a permanência de uma casa de banho daquelas portáteis que ficou esquecida no fim da minha rua desde o tempo de umas obras quaisquer. Noutras ocasiões, tenho ainda apenas sorte, como hoje em que saí de manhã para tomar café e num curto espaço deparei-me com dois pombos mortos (o que me deu logo o mote para o telefonema do dia: quando é que vêm buscar os animais mortos que estão na via?).  Felizmente, tenha eu saúde que material não me falta. Até agora tem sido divertido e só descansarei quando os funcionários começarem a tremer quando ouvirem o telefone a tocar.

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