segunda-feira, 13 de junho de 2011

A bipolaridade de um povo

Procurei desesperadamente um video que vi há pouco do Luís, o jovem que ontem decidiu barricar-se no prédio em Quarteira depois de ter atirado à cabeça de um GNR. No video - que não encontrei ainda - o jovem aparece alegramente a cantar em freestyle, e foi publicado na internet há coisa de três dias. A mim faz-me muita confusão que um espaço temporal tão curto separe um momento de descontracção em que se anda a brincar aos videozinhos caseiros, de um acesso de loucura onde só não se matou outro ser humano por uma questão de falta de jeito ou arremesso de sorte. Faz-me mais confusão ainda os testemunhos automáticos que brotam naquelas entrevistas populares a senhoras que vestem  batas e que estavam por acaso a passar; e os comentários espontâneos que ainda hoje ouvi de manhã no café e que vão todos no sentido do quão "lamentável" a situação é, de como se tem "pena" de um jovem, que claramente teve um ataque súbito de loucura porque sabe-se lá, imagine-se lá, a pressão que a vida deve ter imposto para ter chegado a tal ponto de ruptura. Lembro-me logo do Renato Seabra, de quem muita gente também teve pena. Além do óbvio, do incompreensível destes acessos de sentimentalismo que o povo português tem, não consigo também conciliar isto com algo que também é muito típico, que é aquela sede de vindicta, por exemplo naquele caso das raparigas que espancaram a outra. O sentido de justiça do português é como a educação que dão aos filhos - numa coisas austero, noutras estupidamente condescendente, mas sem grande reflexão ou sentido; vai sendo como calha. Só cabe mesmo concluir que Portugal pode ser ou o melhor ou pior país para se ser criminoso; depende do estado da lua.

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