terça-feira, 1 de março de 2011

The sun comes along

Na minha última visita a Londres decidi, num dos dias, apanhar o red bus número 24 de Camden para Pimlico. Desculpem-me a infantilidade, ou melhor, o estilo declaradamente pacóvio, de quem se entusiasma a andar no segundo andar de um autocarro. Tinha a ideia pré-concebida - porque aqui é assim- que o terminal do autocarro coincidia com a paragem de metro, e desta até à Tate Britain (destino final) era um instantinho representado numa linha larga do meu mapa comprado a uns solícitos indianos. Estava enganada e dei com o autocarro vazio, à excepção de duas turistas alemãs e eu própria, num território meio industrializado à beira rio. Hiperventilei um pouco, saquei do mapa, identifiquei a placa com o nome da rua, não percebi onde estava, deduzi que se continuasse a andar ao pé do rio chegaria de qualquer forma ao museu, pus-me a andar. Pelo caminho, já tinha desenrolado o meu cachecol que quase arrastava pelo chão e esforçava-me para equilibrar a garrafa de água, a mala, a câmara fotográfica penduradas num dos braços, enquanto tentava manter o mapa aberto não fosse vislumbrar algum ponto de orientação. Cruzo-me entretanto, com um senhor de ar respeitável que à boa maneira britânica logo me oferece ajuda. Mostro para onde quero ir, ele diz que é pertíssimo e afirma, que se conseguir apanhar um táxi, tem todo o prazer  deixar-me lá. Recuo - "nunca aceitar boleia de estranhos", dizia a mamã -, rapidamente ocorrem-me de todas as reportagens do "Toda a verdade" sobre mulheres raptadas, redes internacionais de prostituição e tráfico de orgãos, e digo que sim. Sim, pensei nisso tudo e disse que sim. Enquanto esperámos pelo táxi o senhor perguntou-me o que eu fazia. Respondi. Depois disse-me que ele era político, que tinha ascendido há pouco tempo a Lord - "Do you know what a Lord is?" - perguntou-me ele enquanto procurava um cartão pessoal para me estender. Entretanto apanhámos o táxi e falámos de arte e do bom tempo, enquanto eu gracejei, como sempre, com o facto de apanhar sempre sol em Londres e de como podia ser só eu que levava o Sol comigo na bagagem. A viagem foi, como prometido, curta e ele despediu-se, simpático, dizendo que devia voltar mais vezes, que fazia falta na cidade o meu sunshine contínuo. Na altura, despedi-me e lá fui ver os Pré- Rafaelitas. Em dias como o de hoje, acho especialmente piada à ilusão de poder arrastar um pouco de Sol.

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